COMO PEGAR PEIXES


por Robert L. Gouldin


Em 1949, mudei para Dakota do Norte, primeiro para substituir temporariamente um velho amigo, e depois para ficar.

Trabalhei duro para montar com ele uma incipiente clínica geral para satisfazer as necessitadas médicas de uma populaçăo de oito mil pessoas, espalhadas por cento e cinqüenta mil quilômetros quadrados. Um dia, no fim da primavera, um banqueiro amigo, Don Stewart, disse-me: ´´Doutor, vocę tem trabalhado demais.Precisa ir pescar``.

´´Droga, Don``, eu repliquei.´´Toda a pesca que eu já fiz se resume em ter jogado minhocas no East River, em Nova York, quando tinha seis anos, ter deixado um cabo de vassoura ao longo da entrada da garagem de meu tio para ´pescar`o carro dele aos dez anos e ter ´pescado`umas donas no lago Mendota, em Madison, quando tinha dezoito anos. Eu năo sei como pescar``.

´´Eu sou bom em pesca que usa mosca como isca``, disse Don. ´´Eu ensinei vocę. Vamos de carro a Sand Creek, no Wyoming, este fim de semana, pegar umas trutas``.

Assim, eu fui pescar. Como eu havia previsto, năo peguei um só peixe, mas aprendi alguma coisa. E pelos próximos vinte anos, até a morte de Don, nós fomos pescar quese todos os anos em Yellowstone, perto das geleiras, na Dakota do Norte e na do Sul, no lago Alligator, na Flórida, em Índia River, na Flórida, e em alguns outros lugares. Aprendi o que havia para se saber sobre pesca de trutas, sobre moscas, como lançá-las, como usá-las com uma chumbada cônica, que tipo de vara usar, que tipo de linha usar para o arremesso, como vadear a água, como usar moscas secas contra a corrente, quando está vadeando a água, como usar moscas molhadas, como me comportar em rios grandes, como o Yellowstone ou o Madison, como lançar linha contra o vento. Aprendi a procurar pelos pontos onde os peixes vinham á superfície, como usar óculos Polaroid para vę-los emergir, como lidar com linha flutuante, como mantę-la flutuando, como dar informaçőes secretas para outros pescadores, como obter ardilosamente as deles, e como năo ser um purista quanto as iscas, quando se está com fome e a única coisa comestível no rio é um peixe ainda năo pescado que năo está comendo moscas.Aprendi a desembaraçar todas as minhas linhas enroscadas, quando necessário, e geralmente podia lançar minha mosca e acertar em um copo pequeno, năo importando o vento, e quase qualquer distância razoável. Aprendi como evitar bater na água durante o impulso para trás no lançamento e como evitar emaranhar a linha em árvores ou na grama atrás de mim. Aprendi como evitar mostrar minha sombra para que as trutas năo me vissem.

Aprendi um bocado. Acho que peguei um pouco mais de peixes que os năo treinados, mas, com todo o meu conhecimento, eu nunca peguei muito peixe. Na época, minha família e meus amigos costumavam me saudar, quando eu retornava de Yellowstone ou Spearfish Canyon ou Big Bend, Montana, com ´´bem, Papai (ou Doutor), quantos vocę pegou desta vez? Hahaha``. Don geralmente pegava uns dez contra o meu ´´um``. Comecei a receber carinho por năo pegar peixes, e a rir de mim mesmo, me autoqualificando.

Uma vez, meu filho de tręs anos, Phil, um amigo adulto e eu fomos á barragem pescar lambaris, e meu filho voltou com as novas. ´´Eu peguei tręs peixes, Al pegou um e Papai năo pegou peixes. Hahaha``.

E assim foi indo. Em 1967 Don morreu, e eu parei de pescar, porque o divertimento real para mim tinha sido o companheirismo, o acampamento e a conversa no local do acampamento. O divertimento estava em fritar os peixes, em beber uísque até tarde da noite, filosofando enquanto o fogo crepitava, levantando ao sol nascer e pescando até que os turistas chegassem. Entăo, nós deitávamos ao sol, olhando os pássaros voar, ouvindo aquáticas, admirando algum majestoso alce que vinha beber no rio Madison. (Aqueles foram bons dias, Don, e eu sinto que vocę năo esteja aqui agora, embora tenha dito meu adeus e lamento por vocę, amigo, e por mim. Nunca souberam que grande homem vocę foi, embora eu soubesse, e em algum lugar, lá no fundo, talvez vocę também soubesse.)

E assim eu parei de pescar, até o verăo de 1969, quando meus dois rapazes, Phil e Harry, sugeriram que fôssemos mais uma vez, só nós tręs. Aquilo que me pareceu uma boa, e fizemos nossos planos.

´´Mas desta vez``, exclamei, ´´vou pegar minha parte dos peixes. Năo tenham dúvidas. Eu decidi. ``

Isto estava ligado ao trabalho que Mary e eu estávamos fazendo com Redecisőes. Muitos de nós, quando pequenos,aprendemos como sobreviver e como nos arranjarmos "mais ou menos", e, para isso, aceitamos exigęncias "loucas" que nos impõe. E entăo deixamos que aquela decisăo precoce e (agora) irracional guie nossas vidas. Eu estava consciente de que, de alguma maneira, havia decidido năo pegar peixes, e embora năo tivesse conectado com todas as ramificaçőes desta decisăo, sabia que teria que mudá-la, se quisesse trazer peixe decisăo, sabia que teria que mudar - lá, se quisesse trazer peixe para casa. Desta vez, também, eu quase fui á bancarrota, após um desastroso investimento em sindicato, após vinte anos de bem sucedida prática geral e psiquiatria, e eu tinha um palpite de que minha pesca e minhas finanças estavam igualmente enganchadas na mesma precoce e autodesqualificadora decisăo.

Assim fizemos planos para ir pescar durante as duas semanas entre o Dia do Trabalho e o Festival de Jazz de Monterey. Notifiquei meus sócios e passei para minha velha măe, para dizer-lhe que năo iria vę-la por algumas semanas, porque estava indo pescar.

´´ Oh, Bob, vocę é impossível``, ela exclamou.´´Vocę nunca pega nenhum peixe!``.

Entăo, eu ouvi as conexőes:

´´ Vocę năo pode pescar, há,há!`` (Eu acho que posso.)

´´ Vocę năo tem tempo para se divertir!`` (Eu acho que năo tenho.)

´´ Năo seja infantil!``(Năo serei.)

´´ Vocę năo sabe sobre dinheiro!`` (Eu acho que năo.)

´´ Assim trabalhe duro``(Sim.)

Toda série de injunçőes com as quais eu decidira seguir: Năo seja criança; Năo se divirta; Năo ganhe dinheiro; Năo pegue peixe; Mas trabalhe. E com sua sorte é melhor trabalhar duro.

Entăo soube que estava para mudar minha vida - pegar peixes, para me divertir, para ter tempo para mim, para curtir as coisas que eu queria. E năo perder amigos, perder dinheiro, perder peixes, perder quase tudo, como eu fizera. Nunca mais, nunca mais! Eu tomei uma decisăo: ´´ Estou indo pegar peixe!``

Assim, na sexta-feira antes do Dia do Trabalho, em 1969, nós partimos para o Yellowstone. Estávamos ainda em Bridge Bay quando me lembrei de que havia deixado minhas botas impermeáveis para trás. Meu primeiro cochilo em minha decisăo de pegar peixes.

Como, no inferno, pode um homem pescar nas águas rápidas do Gibbon ou Truckee, ou as águas geladas do Yellowstone sem botas, e, além disso, sempre quis um par de sapatos de sola de feltro iguais aos que comprei para dar no aniversário de Don Stewart, quinze anos atrás, mas nunca comprei para mim (outra maneira de năo pegar peixes?), embora tenha escorregado nas rochas muitas vezes. (Quem pode pescar sentado no rio?) Aha, pensei, agora estou começando a ver como fazia para năo pegar peixes. Eu havia caído sentado lá no rio, por falta de sapatos adequados. Eu também havia caído sentado em algumas relaçőes pessoais, e também preferia năo me divertir, năo aproveitar e năo ficar livre de preocupaçőes. Afinal, se a vida fosse tăo boa assim, como é que eu poderia me manter trabalhando tanto? Estou vendo!

Chegamos em Yellowstone na tarde do Dia do Trabalho. Todos os turistas estavam começando a levantar acampamento, e no próximo dia o parque estaria vazio, exceto por nós, pescadores. Dirigi-me para West Yellowstone, e, primeira coisa que fiz logo de manhă, comprei meus sapatos com solado de feltro e um par de botas impermeáveis; aí voltei alegremente para Madison Junction, para pegar peixes.

Peguei meia dúzia de trutas rapidamente, e as devolvi ŕ água porque tínhamos o dia todo para pescar e licença limitadas e somente tręs peixes.

Subitamente, parei de sentir beliscar. Phil e harry continuavam sentindo os deles. O que, oh, o que eu estava fazendo errado? Olhei a minha mosca. A mosca estava em ordem. Olhei a vara e a linha arremesso. A vara estava em ordem. Olhei a vara e a linha de arremesso. A vara e estava em ordem, a linha flutuava. Olhei minha chumbada direcionadora. Aha! Minha chumbadora para tręs metros estava agora a dois metros, e ainda por cima havia enroscado nas moscas, ficando cada vez mais curta. Peguei uma nova chumbada, tirei a velha (para o bolso, para amarrar a uma outra linha para mais tarde), coloquei nova. Uma nova mosca, e voltei a pegar peixes. Hurra! Minha decisăo está funcionando!

Mais tarde, todos nós concordamos que os peixes haviam parado de beliscar. Isso, ou porque os peixes naquele lugar haviam acabado por estarem de barriga cheia, ou porque o sol havia esquentado a superfície - entăo vadeados em direçăo a terra.

Comecei a divagar, deitado na grama com uma cerveja gelada, e entăo recordei que o prazer desta viagem era pegar peixes, năo filosofar em cima de uma cerveja. Partimos para o Gibbon, onde a garganta é profunda, o sol é lento, a água é rápida, e os peixes espreitam nas escuras profundezas, mas sobem preguiçosamente para engolir lúgubres iscas. Dirigindo-me para a área de piqueniques na margem do Gibbon, oitocentos metros de traiçoeiros terrenos vadeáveis abaixo das estrondosas quedas d´água: oitocentos metros que Stewart sempre enfrentara, enquanto eu preguiçosamente pescava nos baixios perto da estrada, pegando năo mais que uns dois peixinhos de vinte e cinco centímetros. Don costumava voltar com dois ou tręs peixes, de quarenta e cinco ou cinqüenta centímetros, e histórias sobre menores, que ele havia soltado de volta.

´´ Năo desta vez``, disse o pescador.´´Desta vez eu também vou contra a corrente, pegar alguns daqueles grandőes.``

Vadeamos rio acima, os tręs lado a lado, através dos enormes cardumes do baixio, pegando alguns pequenos e saltando-os de volta. Quando chegamos na parte ruim do vau, Phil foi pela margem direita, eu para a esquerda, para pescar nas fendas e nas rochas, enquanto Harry concordou em seguir e pescar nas piscinas naturais. Quando chegamos onde se podia ver as quedas d`água, cento e cinqüenta metros a jusante delas, cada um de nós já tinha enfiado em seu cesto uma imponente truta de quarenta e cinco centímetros, e já havíamos soltado várias com menos de trinta centímetros de comprimento. Entăo, eu peguei o avô delas em minha linha. Eu estava com um linha apropriada para peixes de pouco mais de um quilo, assim eu tinha que cansá-lo, para ao perdę-lo, e foi o que fiz, sobre rochas e através de depressőes, me ensopando até o pescoço, mas aquentando o tranco, pois era tudo uma questăo de quem cansaria primeiro. A decisăo dele era sobreviver, a minha, pegar peixe. Eu venci - eram sessenta centímetros de gorda e bela truta castanha. Assim que passei a rede nela, ouvi um bramido de aprovaçăo e cornetas tocando, e, olhando para cima, vi turistas alinhados no paredăo na borda das cataratas do Gibbon aplaudindo minha luta e minha presa. Eu estava recebendo carinho por pegar peixes, năo por năo estar pegando.

E assim foi por duas semanas. Cada vez que eu pensava e falhava, olhava em volta para ver o que estava fazendo para ficar com a velha e năo com a nova decisăo. Algumas vezes eu estava com uma mosca preta no anzol, quando o enxame local era cinza: e nenhuma truta vai abocanhar uma mosca preta flutuante quando tudo que flutua em volta delas săo moscas cinzas. Algumas vezes eu ficava catando moscas nas árvores, e perdendo meu tempo nas árvores, onde năo havia peixes, em vez de ficar na água, onde eles estavam. Algumas vezes, quando estava cansado, eu chapinhava as águas ao apanhar a presa, assustado e espantando as cautelosas trutas arco -íris. Entăo via que devia parar, descansar, recuperar-me e pegar peixes. Na campina, algumas vezes eu podia me distrair e deixar minha sombra cruzar um imóvel regato. Entăo eu voltava pelo leste, mergulhava minha mosca em uma curva e a deixava flutuar gentilmente, para tentar a truta castanha que viesse, até que zapt! Eu a pegava. Que alegria Eu peguei mais peixe em duas semanas que em vinte anos.

E continuo pegando peixes.

Esta história é para ensinar a vocęs a pegarem peixes, seja qual for o seu peixe. Isso vale para vocę, terapeuta, para aperfeiçoar suas técnicas, para vocę analista, para mostrar uma nova dimensăo. É para vocęs, comunidade de prisioneiros da Penitenciara Federal de Marion, com agradecimentos pela sua hospitalidade quando passamos uns dias com vocęs, e para vocęs, banqueiros, de Wall Street, para mostra-lhes como desfrutar, năo importa qual seja o seu confinamento.

E é também para mim, para me ajudar a manter viva a minha decisăo.

( Gouldin, Robert L. in Gouldin Mary, 1993: 107-114 )

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